O governo militar de Mianmar intensificou uma ofensiva na região destinada à Zona Econômica Especial de Dawei, no sul do país. O projeto, que inclui um porto de águas profundas e uma usina de energia no Mar de Andamão, vem sendo negociado com apoio da Rússia.
Segundo relatos de grupos de resistência e ativistas locais, centenas de militares foram enviados à região desde julho. Vilarejos teriam sido incendiados, áreas foram isoladas e moradores precisaram deixar suas casas. A Reuters informou não ter conseguido verificar de forma independente todos os relatos.
O complexo de Dawei é discutido desde 2008, mas enfrentou sucessivos atrasos financeiros e políticos. Em 2025, Rússia e Mianmar assinaram um memorando de cooperação para investimentos na zona econômica, incluindo o porto e uma refinaria.
Localização estratégica
A localização ajuda a explicar o interesse no projeto. Conectada por rodovias à Tailândia, Dawei poderia criar uma rota entre o Oceano Índico e o Sudeste Asiático sem a necessidade de contornar a Península Malaia e atravessar o Estreito de Malaca.
Para a Rússia, o complexo abriria oportunidades para empresas de energia e infraestrutura e ampliaria sua presença em uma região disputada por China, Índia, Japão e países ocidentais. Para o governo de Mianmar, o projeto poderia atrair investimentos e gerar receitas em meio ao isolamento internacional e à deterioração econômica.
A ofensiva ocorre dentro de uma guerra civil iniciada após o golpe militar de 2021. Grupos de resistência controlam áreas próximas e tentam impedir o avanço das tropas sobre os terrenos associados ao empreendimento. O conflito já provocou dezenas de milhares de mortes e deslocou milhões de pessoas no país.
Dawei demonstra como portos deixaram de ser apenas infraestruturas comerciais e passaram a ocupar posição central nas disputas por rotas, influência e acesso ao Oceano Índico. A localização estratégica pode atrair capital, mas a violência contra comunidades e a ausência de estabilidade política elevam o risco de o projeto permanecer economicamente inviável ou depender de proteção militar permanente.






