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O mar como laboratório: por que o Brasil precisa testar offshore wind antes de escalar

Por Rodolfo Gonçalves*

O Brasil discute a eólica offshore em uma escala impressionante. São dezenas de gigawatts em projetos e uma nova fronteira energética que pode transformar portos, indústria e regiões costeiras. Mas antes de ocuparmos o oceano em escala de gigawatts, precisamos aprender com ele em escala de megawatts.

É aí que os projetos-piloto ganham uma função que vai muito além de produzir energia.

Instalar uma turbina offshore significa introduzir uma nova atividade em um ambiente onde já convivem pesca, navegação, biodiversidade, portos, turismo e outras atividades econômicas. Significa também operar estruturas durante décadas sob ondas, vento, correntes, corrosão e biofouling.

Modelos numéricos, estudos ambientais e experiências internacionais são fundamentais. Mas não substituem dados obtidos no mar brasileiro.

Um projeto-piloto pode transformar o oceano em um verdadeiro laboratório a céu aberto.

Podemos medir vento, ondas e correntes; acompanhar aves e mamíferos marinhos; estudar ruído submarino; observar possíveis interações com a pesca e a navegação; entender processos de corrosão e crescimento marinho; testar sistemas de monitoramento; e aprender como realizar inspeções e manutenção nas condições específicas da nossa costa.

Mais importante: podemos descobrir aquilo que ainda não sabemos que precisamos descobrir.

Essa talvez seja uma das maiores contribuições de uma demonstração tecnológica.

Países que hoje possuem uma indústria offshore wind consolidada também passaram por esse processo. O Japão, onde acompanho o desenvolvimento da eólica offshore há mais de uma década, oferece exemplos importantes. Projetos demonstrativos permitiram testar diferentes tecnologias, fundações, plataformas flutuantes e estratégias de instalação. Algumas soluções avançaram. Outras foram abandonadas. Ambas produziram conhecimento.

O Brasil precisa construir sua própria curva de aprendizado.

Temos condições ambientais, infraestrutura portuária, cadeia industrial e realidade socioeconômica diferentes da Europa e da Ásia. Portanto, não basta importar turbinas, tecnologias ou modelos regulatórios. Precisamos entender como essa indústria funcionará em nosso próprio oceano.

Isso também significa pensar desde o início sobre o destino dos dados produzidos.

Quando possível, informações ambientais, oceanográficas e operacionais geradas por projetos-piloto deveriam contribuir para universidades, centros de pesquisa, órgãos públicos e futuros empreendimentos. O conhecimento acumulado pela primeira turbina pode reduzir incertezas da segunda — e de todas as que vierem depois.

É justamente essa lógica que aproxima a eólica offshore do conceito de Economia Azul.

Desenvolver economicamente o oceano não significa apenas explorar novos recursos. Significa criar valor conhecendo melhor o ambiente marinho, convivendo com seus diferentes usos e construindo capacidade científica e tecnológica para utilizá-lo de forma responsável.

Antes de perguntar quantos gigawatts cabem no mar brasileiro, talvez exista uma pergunta anterior:

quanto ainda precisamos aprender sobre o nosso próprio oceano para colocá-los lá?

Projetos-piloto podem começar a nos dar essa resposta.

*Rodolfo Gonçalves possui bacharelado e doutorado em Engenharia Naval e Oceânica. Especialista em engenharia offshore, infraestrutura e energia, é CEO da JB Energy e pesquisador da Universidade de Tóquio, no Japão. Lidera o Aura Sul Wind, primeiro projeto-piloto de energia eólica offshore flutuante do Brasil.

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