Uma pesquisa realizada por cientistas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) identificou uma elevada incidência de alterações nos otólitos de peixes coletados em Conceição da Barra, no litoral norte do Espírito Santo.
Os otólitos são pequenas estruturas calcárias localizadas no ouvido interno dos peixes. Eles participam do equilíbrio e da percepção de movimentos e sons, além de registrar informações importantes sobre o crescimento e as condições ambientais às quais os animais foram expostos.
O estudo analisou 38 exemplares de Stellifer naso, espécie também conhecida como cangoá. Em 23 amostras, equivalentes a 60,5% do total, os pesquisadores encontraram anomalias com diferentes níveis de complexidade e volume.
O percentual é superior aos índices registrados em outras pesquisas realizadas com peixes da costa brasileira. Até então, o maior valor apresentado na comparação científica era de 27,11%, observado em otólitos de bagres da espécie Cathorops spixii.
As alterações foram encontradas com maior frequência na região ventral intermediária dos otólitos e nas margens de uma estrutura denominada sulcus acusticus. As amostras com anomalias também apresentaram maior variação em seu formato.
Alterações podem funcionar como indicadores ambientais
A forma dos otólitos pode ser influenciada por fatores naturais, como idade e processos fisiológicos, e por condições ambientais, incluindo temperatura, salinidade e profundidade. Mudanças no ambiente também podem deixar marcas permanentes nessas estruturas.
Os autores consideram que a elevada ocorrência de anomalias pode estar relacionada aos impactos provocados pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana, ocorrido em novembro de 2015. Os rejeitos de mineração percorreram a bacia do Rio Doce e alcançaram o oceano no litoral do Espírito Santo.
Análises complementares
Essa associação, entretanto, ainda não está comprovada. O próprio estudo recomenda análises complementares, como exames químicos e avaliações tridimensionais de densidade, para investigar os fatores responsáveis pelas alterações.
Portanto, os resultados não permitem concluir isoladamente que os rejeitos causaram as anomalias. Eles apresentam um sinal que justifica o aprofundamento do monitoramento ambiental e de novas pesquisas na região costeira afetada.
O trabalho, assinado pelos pesquisadores Jonas Andrade-Santos, Rafael Menezes e Marcelo R. Britto, foi publicado em 2026 na revista científica Ocean and Coastal Research.






