Por Andrea Bento Carvalho*
O PIB do mar mensura a contribuição das atividades relacionadas ao mar, a composição setorial revela quais atividades geram esse valor e os encadeamentos acrescentam outra informação essencial para a política pública ao mostrar como essa produção se articula com o restante da economia e qual é o alcance territorial dessas relações.
Pesca e processamento pesqueiro articulam demanda por bens de capital, insumos energéticos, logística, armazenagem e serviços especializados. Construção naval e produção de energia no mar mobilizam segmentos industriais, engenharia, manutenção e infraestrutura.
Os complexos portuários, por sua vez, funcionam como pontos de articulação entre transporte, armazenagem, indústria e comércio exterior. Os fluxos econômicos associados ao mar formam uma estrutura intersetorial cuja repercussão territorial alcança regiões distantes das áreas onde a atividade se realiza diretamente.
A incorporação dessas relações à análise permite avançar da mensuração da economia azul para a identificação dos setores e regiões conectados às atividades relacionadas ao mar por vínculos de fornecimento, processamento, serviços e logística, ampliando a base de informação disponível para a formulação de estratégias de política pública.
Na América Latina, o Peru oferece um caso interessante para observar essa dimensão econômica e territorial da economia azul.
A contribuição direta da economia azul peruana foi estimada em 3,3% do PIB nacional em 2022, respondendo também por 2,1% das ocupações do país. Sua composição setorial combina serviços de apoio ao transporte, pesca e aquicultura, produção de farinha e óleo de pescado, revelando uma estrutura em que atividades ligadas aos recursos marinhos se articulam a segmentos de processamento e logística.
Regionalmente, os efeitos diretos se destacam em Lima Metropolitana e Callao, refletindo a importância das atividades de transporte, logística e serviços portuários nessas economias.
Os encadeamentos produtivos acrescentam outra dimensão a esses resultados. Os efeitos indiretos associados às atividades da economia azul alcançaram 3,9% do PIB peruano elevando o efeito econômico total da economia azul a 7,2% do PIB nacional.
A distribuição territorial dos efeitos indiretos revela conexões que alcançam o interior do país. Em Loreto, onde a contribuição direta das atividades marinhas é nula, os encadeamentos com atividades da economia azul correspondem a efeitos indiretos equivalentes a 2,8% do PIB regional. Também se destacam Ucayali, com 2,8%, Pasco, com 2,4%, e Huancavelica, com 2,1% do PIB regional.

Alcance regional dos efeitos diretos e indiretos da economia azul no Peru
Para políticas de alcance estadual ou nacional, a delimitação setorial e geográfica da economia azul não encerra o espaço econômico associado a essas atividades.
Os encadeamentos produtivos conectam a produção relacionada ao mar a setores e regiões localizados fora da costa, de modo que essas interdependências também passam a integrar a base de informação para decisões sobre infraestrutura e desenvolvimento produtivo.
No caso peruano, os resultados oferecem elementos para discutir a articulação entre portos e hinterland, incluindo a coordenação entre planejamento espacial marinho e regulação portuária e a organização da logística entre portos e regiões interiores.
Na passagem do PIB do Mar ao planejamento, o reconhecimento das relações produtivas que conectam costa e interior contribui para que o território considerado para a política pública reflita a rede econômica efetivamente mobilizada pelas atividades relacionadas ao mar.
*Economista. Professora na Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Coordenadora do Laboratório de Economia Regional, Clima e Sistemas Source-to-Sea (LabERcos/FURG/UFPB) e pesquisadora associada ao Núcleo de Economia Regional e Urbana da Universidade de São Paulo (NEREUS/USP). Integra o INCT Observatório Nacional de Segurança Hídrica e Gestão Adaptativa (OnSeAdapta).
¹ Os resultados apresentados para o Peru são de Carvalho, Farias e Haddad (2025), The Peruvian Blue Economy: An Interregional Approach, publicado nos Anais do XXIII ENABER, Ilhéus, BA.






