Por Danilo Trevisan*
O etanol ganha espaço como alternativa ao óleo bunker. Mais de 300 navios encomendados para metanol podem ser adaptados ao etanol, e Maersk, CMA CGM e Vale já testam ou encomendam embarcações com o combustível.
Mas, para o armador, a pergunta decisiva não é “qual combustível?”, e sim “qual a intensidade de carbono (IC) desse combustível?”.
A IC, medida em gramas de CO2 equivalente por megajoule (gCO2e/MJ), resulta da análise de ciclo de vida (LCA) “do poço à esteira”: cultivo, fertilizantes, energia da usina, transporte e queima. E é aí que os etanóis se diferenciam.
Valores típicos de referência mostram o etanol de milho dos EUA entre 55 e 60 gCO2e/MJ, pela energia fóssil (gás natural e carvão) usada na destilaria. O de beterraba europeu fica perto de 35 a 40. O de cana brasileiro, que queima bagaço, situa-se entre 20 e 30.
O etanol de milho brasileiro, em geral, alcança valores semelhantes aos da cana, mas muitas vezes à custa de biomassa de eucalipto ou nativa para gerar vapor. O óleo bunker emite de 90 a 95 gCO2e/MJ.
O Net-Zero Framework da IMO, aprovado no MEPC 83 e com votação de adoção marcada para dezembro de 2026, parte de uma referência de 93,3 gCO2e/MJ e impõe reduções progressivas da intensidade de GEE dos combustíveis (GFI): 4% (meta base) a 17% (meta de conformidade direta) em 2028, 8% a 21% em 2030 e 30% a 43% em 2035. Combustíveis com IC de até 19 gCO2e/MJ (14 a partir de 2035) são classificados como de emissão zero ou quase zero (ZNZ) e podem gerar créditos.
Ou seja, cada grama a menos no LCA vale dinheiro: quanto menor a IC, menos etanol é necessário misturar para cumprir a meta e maior o excedente negociável.
É nesse ponto que o Projeto Farol, se destaca. A biorrefinaria em Jaborandi, no Oeste da Bahia, processará 720 mil toneladas de milho por ano na primeira fase, gerando cerca de 315 mil m3 de etanol, além de DDGS, óleo de milho e CO2 biogênico.
O diferencial é ser uma das primeiras plantas de etanol 100% eletrificadas do país: sem caldeiras a biomassa, sem dependência de lenha plantada ou nativa da região, com energia elétrica de matriz renovável.
Somado ao milho de segunda safra dos agricultores da própria região, que reduz o frete e o uso de terra adicional, o desenho resulta em IC estimada de 10 a 12 gCO2e/MJ, uma das menores do mercado.
O valor representa redução de 87% a 89% frente à referência da IMO e fica abaixo não só do limiar ZNZ atual, mas também do limite mais rigoroso previsto para 2035.
Para o transporte marítimo, isso significa conformidade com folga, acesso a créditos e rastreabilidade de origem.
O Brasil tem escala, portos e know-how. O próximo passo é provar, com LCA certificada, que o nosso etanol é o mais limpo da rota. O Projeto Farol nasce para isso.
*Engenheiro químico, pós-graduado em administração e sócio-fundador da Impacto Energia.





