Por André Gabriel Sochaczewski*
A Amazônia Azul®, com cerca de 5,7 milhões de km², concentra portos, petróleo e gás (O&G), cabos submarinos e as linhas de comunicação marítimas (LCM) por onde trafega mais de 90% do comércio exterior brasileiro. Protegê-la exige presença permanente do Estado. O desafio é maior porque o orçamento de Defesa gira em torno de 1% do PIB. Nesse cenário, os SMNT surgem como alternativa viável para ampliar a Consciência Situacional Marítima (CSM) do Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SisGAAz) (Fig.1)

Figura 1 – Perspectiva conceitual do SisGAAz
O SisGAAz foi concebido como um “sistema de sistemas” modular, escalável e interoperável, o que lhe dá afinidade natural com plataformas não-tripuladas. Dessa forma, sistemas de superfície não-tripulados com payloads conteinerizados, contemplando sonares, radares e sensores eletro-ópticos ou de guerra eletrônica, podem ser integradas como “blocos de construção” aos centros de comando e controle (C2), fixos ou móveis.
As vantagens dos SMNT concentram-se na redução de custos e riscos. Plataformas não-tripuladas, de superfície, aéreas ou submarinas, dispensam estruturas de habitabilidade e têm custos de operação e manutenção até 30% menores. A Aliança Militar do Atlântico Norte (OTAN) estima que, na vigilância marítima, uma plataforma tripulada custe de 10 a 20 vezes mais que sua equivalente não-tripulada. Esse tipo de plataforma pode assumir missões “entediantes, insalubres e perigosas”, denominadas 3D (Dull, Dirty and Dangerous), características típicas do ambiente naval, onde sistemas não-tripulados podem mitigar riscos à atividade humana.
Nesse contexto, “frotas híbridas”, com sistemas tripulados e não-tripulados, como as propostas pelas Marinhas Norte-americanas e Britânicas, ampliam a presença e a dissuasão por meio de operações marítimas distribuídas, ampliando a sua área de cobertura, inclusive em áreas remotas, tais como as encontradas na Margem Equatorial ou ilhas oceânicas do Oceano Atlântico. Desse modo, os SMNT podem operar em conjunto com outros meios tripulados, sejam aéreos, de superfície ou submarinos.
Porém, os desafios para avançar nessa perspectiva são relevantes no que se refere a:
- Comunicações: precisam ser seguras, de banda larga e baixa latência, com criptografia e redundância.
- Navegação: deve ser resiliente ao bloqueio, negação ou falsificação do sinal GPS, inclusive com dispositivos inerciais e protocolos anticolisão.
- Normatização: existem lacunas sobre armamento embarcado e graus aceitáveis de autonomia, além da gradação no controle humano efetivo.
- Tecnologias: elevado risco de dependência estrangeira em sensores, softwares, módulos criptográficos e Inteligência Artificial (IA).
Para tal, valendo-se de suas características, os SMNT de superfície e aéreos podem também atuar como “nós” móveis de uma rede mesh no mar, à luz do conceito de Guerra Centrada em Redes, comprimindo o ciclo de decisão com apoio da IA e tornando o sistema mais resiliente. Assim, a sinergia de uma sólida indústria de O&G offshore já presente na Amazônia Azul®, associada a uma crescente Base Industrial de Defesa (BID), amplia esse potencial, principalmente, quando os recursos orçamentários para a Defesa são restritos e implicam em sérias limitações para atender os desafios da vastidão das águas brasileiras (Fig. 2).

Figura 2 – Rede Mesh no Mar
Apesar de tudo, ainda faz-se necessário a consolidação de uma estratégia nacional para sistemas não-tripulados, apoiada em um marco regulatório próprio, de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) na BID, capacitação de pessoal, parcerias estratégicas estrangeiras e atualização doutrinária, que possa orientar os esforços nacionais no desenvolvimento dessa nova indústria, principalmente, provendo capacidades militares mais eficientes e de menor custo, compatíveis com a magnitude territorial do País e sua relevância geopolítica no Sistema Internacional.

Figura 3 – Sistemas de superfície não tripulados na ARAMUSS-2025
*Capitão-de-Mar-e-Guerra da Reserva da Marinha do Brasil (MB), Mestre em Ciências e Navais pela Escola de Guerra Naval (EGN) e Master of Arts em Estudos de Defesa pelo King´s College London. Atualmente, é assessor militar da Omnisys Engenharia, subsidiária da Thales no Brasil.





