Por Bruno Reis*
Salvador nasceu de frente para a Baía de Todos-os-Santos, hoje conhecida como Capital da Amazônia Azul, e tem uma relação permanente com o Mar. Ele está na nossa fé, na nossa mesa e na nossa festa. Tem a festa de Bom Jesus dos Navegantes, a de Nossa Senhora da Conceição da Praia, a de Itapuã, além do presente para Iemanjá em 2 de fevereiro e o povo na beira do mar quando o ano vira. Esse amor é patrimônio da cidade, e cabe a quem governa transformá-lo em economia, oportunidade e cuidado.
Basta olhar o mapa. O IBGE atribui 693 km² ao município. Desse total, 343 km² são terra firme e 350 km² são mar da baía, mais da metade do nosso território. A baía inteira soma 1.233 km² e banha 17 municípios. Uma cidade assim não pode tratar o mar como paisagem, e por isso trabalhamos nossa relação com o mar em três frentes: desenvolvimento econômico, inclusão social e proteção ambiental.
Banhada de um lado pela BTS e, de outro, pelo Oceano Atlântico, Salvador tem um total de 66 km de orla, incluindo a Costa Atlântica da Amazônia Azul, também usada pela indústria da construção civil onde a ‘vista para o mar’, alinhada com a Lei 14.672/2024 da Política Estadual de Incentivo à Economia do Mar, também agrega valor aos imóveis.
Os empregos formais da economia do mar em Salvador cresceram 6% em 2025 sobre 2024, segundo a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, puxados por manutenção de embarcações, obras portuárias e atividades auxiliares do transporte aquaviário. O Tecon Salvador ficou em 6º lugar entre os terminais de até 500 mil TEUs por ano no ranking CPPI 2023, e a Bahia exportou US$ 11,6 bilhões em 2025, o maior volume do Nordeste, segundo a FIEB. Salvador é, na sua essência, uma cidade portuária
Para quem chega por mar, a burocracia atrasa, e é ela que cuidamos de tirar do caminho. Em outubro de 2023 abrimos, na Doca 1, o SAC Náutico, que reúne Marinha, Receita Federal e Polícia Federal sob o mesmo teto. Desde maio de 2024, registramos embarcação estrangeira em cerca de apenas três horas. Em fevereiro de 2025, criamos a Secretaria Especial do Mar, a Semar, para coordenar essa agenda. Quem investe no mar precisa de regra clara, e é isso que entregamos.
Quem vem de barco precisa de lugar para atracar, e aí entram a náutica e o turismo. O Salvador Boat Show de 2025 reuniu 40 embarcações e 30 marcas na Bahia Marina. Anunciamos R$ 20 milhões em infraestrutura náutica ao longo de três anos, com a primeira marina pública municipal e parcerias com a iniciativa privada.
Economia forte só vale se chegar a quem vive do mar. Em agosto de 2026 lançamos o Pro Pesca Salvador, com regularização de embarcações e colônias, cursos e um censo municipal da pesca. A sede da Colônia de Pescadores de Paripe, será a nona construída ou reconstruída pela atual gestão. Pescador e marisqueira são quem melhor conhece este mar.
Nada disso se sustenta sem preservar. No Parque Natural Municipal Marinho da Barra, os recifes abrigam mais de 200 espécies de peixes e três naufrágios tombados. Nosso projeto inclui câmeras de monitoramento marítimo, e as imagens serão compartilhadas com a Guarda Civil, a Capitania e os órgãos ambientais. No Porto da Barra, instalamos boias que delimitam uma área de banho a 90 metros da faixa de areia, onde embarcações motorizadas não podem mais circular. A vida de criança, de família e de banhista vem antes da velocidade.
O que esperamos? Repetir e ampliar o resultado de 2025: mais embarcações e tripulações escolhendo Salvador, mais emprego na cadeia náutica e no turismo, pescadores e marisqueiras regularizados e com acesso a programas públicos, praias mais seguras e recifes mais protegidos.
Esse resultado não para no limite da cidade. Quem passa pelo SAC Náutico tem a baía inteira pela frente, de Cachoeira a Itaparica, de Jaguaripe a Madre de Deus. Quando o porto cresce, carga, serviço e emprego chegam também às cidades vizinhas. Por ser a maior cidade da baía, Salvador assume a frente dessa agenda e quer caminhar com os municípios vizinhos.
Falta ainda medir o mar. As estimativas da participação dele na economia brasileira variam muito, e Salvador não fez ainda a sua conta. O censo da pesca é o primeiro passo. O resto é trabalho diário, de cais em cais. Salvador tem a devolver ao mar cuidado e preservação, e é assim que o mar seguirá sustentando a nossa economia e o nosso desenvolvimento.
*Bruno Reis é prefeito de Salvador.






