Por Gabriel Calzavara*
“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.”
Fernando Pessoa — Mensagem
Fernando Pessoa sintetizou em versos uma ideia extraordinariamente atual: o mar não como fronteira que separa povos, mas como espaço que os aproxima.
O Brasil precisa voltar seus olhos para o Atlântico. Sua extensa costa e dimensão marítima oferecem condições excepcionais para transformar posição geográfica em vantagem econômica, tecnológica e geopolítica.
Essa oportunidade é particularmente relevante para o Nordeste. Projetado sobre o Atlântico, está próximo da África Ocidental, do Caribe e das rotas que conectam a América do Sul ao mundo. Pode tornar-se plataforma de integração entre Mercosul, África Ocidental, Guiana, Suriname e Caribe.
Precisamos pensar também além das grandes corporações. Uma nova logística marítima, apoiada em rotas regulares, portos regionais e redes de distribuição, pode integrar micro, pequenas e médias empresas dessas regiões a mercados antes economicamente distantes.
Ocupar economicamente o Atlântico significa desenvolver transporte marítimo, indústria naval, pesca e aquicultura, energia, biotecnologia, inteligência artificial, ciência, tecnologia e serviços marítimos de forma sustentável.
Nesse contexto, proponho a criação de um Cluster Tecnológico Naval do Atlântico Sul, articulando os países sul-americanos e da costa ocidental africana e aproximando empresas, universidades, centros de pesquisa, governos e instituições para desenvolver e compartilhar conhecimento e soluções para a exploração sustentável das grandes regiões marítimas.
Os países atlânticos precisam transformar suas Zonas Econômicas Exclusivas em espaços de conhecimento, desenvolvimento e geração de riqueza e, simultaneamente, ampliar sua presença econômica e tecnológica nas águas internacionais.
No final dos anos 1950, Celso Furtado compreendeu que o desenvolvimento brasileiro não seria completo enquanto o Nordeste permanecesse à margem dos grandes vetores de transformação do país. A industrialização foi então concebida como instrumento para modificar essa realidade. Muito se avançou, mas a transformação estrutural imaginada permaneceu incompleta.
Mais de seis décadas depois, o Atlântico nos oferece uma nova oportunidade histórica.
Se, no século XX, Celso Furtado enxergou na industrialização um caminho para transformar o Nordeste, no século XXI podemos encontrar na Economia do Mar uma nova fronteira para esse desenvolvimento.
“O Atlântico pode deixar de ser a margem oriental do Nordeste para tornar-se no centro de uma nova geografia econômica, fazendo da região um vetor brasileiro de desenvolvimento, integração e presença no mundo.*
*Gabriel Calzavara é economista e empresário da Economia do Mar, com atuação nos setores de transporte marítimo, pesca oceânica e integração de negócios no Atlântico. Vice-Presidente da FIERN e Presidente do Conselho Administrativo do Cluster Tecnológico Naval do Rio Grande do Norte. gcalzavaradearaujo@gmail.com

é economista e empresário da Economia do Mar, com atuação nos setores de transporte marítimo, pesca oceânica e integração de negócios no Atlântico. Vice-Presidente da FIERN e Presidente do Conselho Administrativo do Cluster Tecnológico Naval do Rio Grande do Norte. gcalzavaradearaujo@gmail.com





