Por Leandro “Mané” Ferrari*
Durante décadas, o Brasil olhou para o setor náutico pela perspectiva do produto final. Via o barco. Raramente enxergava a economia que existe antes, durante e depois dele.
Santa Catarina começou a mudar essa lógica.
Uma embarcação não nasce apenas em um estaleiro. Ela mobiliza metalurgia, compósitos, madeira, eletrônica, engenharia, design, logística e uma extensa rede de fornecedores. Depois de entregue, passa a demandar marina, manutenção, equipamentos, comércio, serviços e turismo. O barco é apenas a parte visível de um sistema econômico muito maior.
Os números dimensionam essa transformação. No início da década passada, o Estado tinha 94 empresas náuticas registradas. Hoje são mais de mil. A Economia do Mar catarinense reúne cerca de 250 mil trabalhadores formais e mais de 23 mil estabelecimentos, movimentando mais de R$ 1 bilhão por mês em massa salarial.
Há um dado ainda mais revelador: 44,5% dos empregos ligados à Economia do Mar em Santa Catarina estão na indústria. Isso desmonta a ideia de que falar de mar é falar apenas de turismo, pesca ou lazer.
Significa falar de política industrial.
E talvez esteja aí a maior lição catarinense. O crescimento não aconteceu apenas porque temos 531 quilômetros de litoral. A geografia oferece oportunidade; não cria desenvolvimento sozinha. Foram décadas de construção institucional, aproximação entre iniciativa privada e poder público, infraestrutura, eventos, formação profissional e defesa permanente do setor.
Agora começa uma segunda etapa.
Não basta produzir barcos. Precisamos discutir competitividade tributária, infraestrutura náutica, qualificação, inovação, exportação, descarbonização e segurança jurídica. E transformar nossas águas em ativos econômicos sem comprometer o patrimônio ambiental que sustenta essa própria economia.
É essa mudança de perspectiva que discuto em meu novo livro, “A Conta Vai Mudar”. O título é uma provocação e também um alerta: decisões tributárias, tecnológicas e regulatórias tomadas agora vão definir quem seguirá competitivo na próxima década.
Santa Catarina provou que o mar pode gerar indústria, emprego, renda e desenvolvimento.
O próximo desafio é maior: transformar essa vocação em estratégia de Estado.
Porque um barco nunca é apenas um barco.
E o mar nunca foi apenas paisagem.
*Leandro “Mané Ferrari” é especialista em Economia do Mar, presidente da ACATMAR – Associação Náutica Brasileira e do Blue Nautical Hub Brasil. Jornalista, atua há mais de 40 anos no setor náutico e é criador do Mundo Mar TV, primeiro programa de televisão brasileiro dedicado ao setor. Foi secretário de Estado de Turismo de Santa Catarina e presidente da SANTUR. É autor de O Motor Secreto do Brasil e A Conta Vai Mudar. maneferrari@gmail.com
Publicado em 11/08/2026






