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[Artigo] O mar como laboratório de pesquisa

Por Eduardo Galembeck*

Há perguntas científicas que nenhuma bancada consegue responder. Em um aquário podemos controlar a temperatura, a salinidade e a luz — mas não a chegada das larvas trazidas pela maré, a disputa silenciosa dos organismos por cada centímetro de uma superfície submersa, o vaivém das ondas e das estações. Para quem estuda o oceano, chega sempre o momento em que o experimento precisa ir para o mar. E é aí que o mar deixa de ser apenas objeto de estudo para se tornar o próprio laboratório.

É essa a experiência que temos vivido no projeto Bioē, desenvolvido no Instituto de Biologia da Unicamp. O Bioē investiga o potencial bioeletroquímico das comunidades de bioincrustação marinha — o chamado biofouling, conjunto de micro-organismos, algas e invertebrados que colonizam qualquer superfície imersa no mar. Sobre substratos eletricamente condutores, essas comunidades são capazes de gerar eletricidade. A proposta é transformar um fenômeno tradicionalmente tratado como problema em fonte de energia renovável: uma “energia azul” capaz de alimentar boias de sinalização náutica e sistemas autônomos de monitoramento ambiental, reduzindo a dependência de baterias e de manutenção embarcada.

Para isso, imergimos placas com diferentes formulações de revestimento e substratos de grafite condutor e acompanhamos, ao longo de meses, como as comunidades marinhas as colonizam e que parâmetros elétricos produzem. Nada disso faz sentido fora do ambiente real: nenhum tanque reproduz a diversidade de larvas de um trecho de costa, a sucessão ecológica de uma comunidade incrustante ou as condições físicas e químicas que um dispositivo enfrentará em serviço. Experimentos assim só são possíveis porque existem instituições que mantêm, há décadas, as portas do mar abertas à ciência. Duas delas merecem destaque.

Em São Sebastião, o Centro de Biologia Marinha da USP (CEBIMar) é um dos mais tradicionais laboratórios costeiros do país. Criado em 1955 como Instituto de Biologia Marinha e depois incorporado à USP, está instalado à beira do Canal de São Sebastião, com acesso direto ao mar, laboratórios, embarcações e alojamento para pesquisadores. Sua vocação, desde a origem, é ser infraestrutura aberta: recebe cientistas de instituições de todo o Brasil e do exterior, oferecendo aquilo que nenhum campus distante da costa pode oferecer — o mar ao alcance da bancada, e uma equipe que conhece cada variação daquele trecho de litoral.

Em Ubatuba, o Instituto de Pesca, vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, mantém o Núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento do Litoral Norte, referência em maricultura e piscicultura marinha. Com estruturas de cultivo instaladas no próprio oceano em sua fazenda experimental marinha, o núcleo desenvolve tecnologias que aproximam a pesquisa da atividade produtiva de pescadores e maricultores. Ali, ciência e economia do mar convivem no mesmo cais.

O que essas duas instituições têm em comum é algo precioso e pouco visível: elas transformam um trecho de oceano em infraestrutura de pesquisa. Um telescópio ou um acelerador de partículas são imediatamente reconhecidos como grandes equipamentos científicos. Uma estrutura de imersão de placas presa a um cais parece simples — mas mantê-la operante o ano inteiro exige embarcações, mergulho, manutenção contínua, licenças, monitoramento e, sobretudo, décadas de conhecimento acumulado sobre aquele pedaço de mar. É essa infraestrutura, humana e material, que permite que um projeto concebido em Campinas, a mais de cem quilômetros da costa, tenha seus experimentos banhados diariamente pelo Atlântico.

Para a economia do mar, a mensagem é direta: não existe exploração sustentável do oceano sem conhecimento produzido no próprio oceano. Energia, aquicultura, biotecnologia azul, transporte, turismo — todos dependem de entender como os ecossistemas marinhos respondem à presença de estruturas, materiais e atividades humanas. Instituições como o CEBIMar e o Instituto de Pesca são a porta de entrada para esse conhecimento, e cada projeto que acolhem multiplica o retorno do investimento público que as sustenta.

O Bioē é financiado pela FAPESP no âmbito do PROASA — Programa FAPESP para o Atlântico Sul e Antártica (Processo nº 2025/0787809), na chamada de Programas de Inovação Tecnológica de 2025. Endossado como contribuição à Década do Oceano das Nações Unidas, o PROASA parte de uma premissa que este artigo procura reforçar: conhecer o Atlântico Sul é estratégico para o Brasil, e esse conhecimento se constrói no mar. O apoio da FAPESP e a existência de um programa dedicado ao oceano tornam possível que ideias saiam do papel e entrem na água — literalmente.

Quando uma boia de sinalização alimentada pela eletricidade de organismos marinhos estiver em operação na costa brasileira, o mérito não será apenas de quem a projetou. Será também das instituições que, todos os dias, mantêm o mar aberto como laboratório. Cabe a nós — pesquisadores, agências de fomento e sociedade — mantê-las fortes.

*Eduardo Galembeck é Professor Titular  do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), onde coordena o projeto Bioē (sites.google.com/unicamp.br/bioe), dedicado à geração de energia renovável a partir de comunidades de bioincrustação marinha.
Publicado em 11/08/2026

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