Por Gilberto S. Kerr*
INTRODUÇÃO: “UM PAÍS DE COSTAS PARA O MAR”
É comum ouvirmos que “falta mentalidade marítima” aos brasileiros, mas precisamos investigar esta premissa e a origem de tal afirmação. A expressão cultural não é apenas carnaval e folclore. Cultura é um conjunto de valores, ritos, tradições, símbolos, relações com nosso território, artes, alimentos, emoções e visões de mundo. É uma lente pela qual um povo enxerga a si mesmo e o seu lugar no mundo. Talvez esteja justamente aí a explicação para a nossa cegueira oceânica.
O Brasil “nasceu” pelo mar, em 1500. Mas cresceu de costas para ele. Nosso projeto de nação foi construído para dentro: o ouro de Minas, o café do interior paulista, a soja do Centro-Oeste, as rodovias cortando o sertão. Nossos ritos de progresso foram os caminhos dos bandeirantes, o trem e o caminhão. Nossos símbolos nacionais falam de montanha, campo e cidade. Na escola, aprendemos o ciclo do ouro, da borracha e do café, mas raramente se ensina o ciclo do mar. Na arte, no cinema e na mesa, o mar aparece como cenário de férias, não como eixo de trabalho, poder e sobrevivência.
Enquanto países com muito menos faixa litorânea dependem do oceano para sua identidade e economia, nós – com 8.500 km de costa e 5,7 milhões de km² de “Amazônia Azul” – não raro, ainda tratamos o mar como fronteira e não como centro da vida humana no planeta água. Reconhecer essa ausência de uma “cultura marítima” é o primeiro passo.
O segundo é entender que mentalidade marítima não nasce espontaneamente no cais. Ela se constrói. Se forma na sala de aula, no museu, no livro de história, no prato de comida e na política pública.
Este artigo busca justamente unir essas peças: cultura, patrimônio histórico e economia do mar. Porque sem memória não há consciência. E sem consciência, não há soberania. Dessa forma, talvez possamos compreender por que ainda não nos tornamos uma nação intimamente conectada ao mar. A consciência marítima se apoia em 3 pilares: Cultura, Patrimônio e Economia.
1. CULTURA MARÍTIMA: A IDENTIDADE QUE NOS FALTA
Ter cultura marítima é entender, no dia a dia, que o mar não é limite. É estrada, é riqueza, é futuro. É o pai explicar pro filho que o gás de cozinha e o celular vieram de navio. É a escola ensinar que 95% do nosso comércio exterior depende de portos modernos e equipados. É a mídia mostrar um resgate em alto-mar com o mesmo destaque que mostra uma partida de futebol. Países marítimos transformaram o oceano em valor. Na Noruega, o mar é inovação. No Japão, o mar é alimento e disciplina. Em Portugal, o mar é história e orgulho. No Brasil, o mar ainda é uma “bela paisagem”.Fomentar essa cultura é mudar a nossa visão de mundo. É sair da lógica continental e entrar na lógica oceânica. Só assim o cidadão irá compreender a centralidade de portos eficientes e da pesquisas científicas ligadas ao mar. Ver um Museu Marítimo não como gasto, mas como investimento. Enxergar finalmente a Marinha como vital para defesa dos interesses nacionais, dissuadindo a cobiça de outras nações.
2. PATRIMÔNIO HISTÓRICO: A PONTE ENTRE PASSADO E FUTURO
Se a cultura é a alma, o patrimônio é o corpo. Ele dá materialidade a nossa relação com o mar. Preservar um navio museu como o Contratorpedeiro Bauru, um farol do século XIX, os documentos dos 32 navios mercantes afundados na 2ª Guerra, ou a memória da Marinha de Guerra, é cumprir 3 missões:
Educação: Pisar no convés de um navio real ensina mais sobre coragem, liderança e tecnologia que 10 aulas. Tira o mar da abstração.
Soberania: Conhecer nossa história naval é entender por que precisamos defender fronteiras marítimas e como o pré-sal e o Programa de construção de Submarinos são duas faces da mesma moeda.
Renda: Patrimônio preservado vira turismo, promove roteiros culturais, torna-se emprego no litoral. Sem memória, repetimos erros. Um país que esquece sua história naval, suas conquistas e bens culturais subaquáticos, heróis como Tamandaré e Marcílio Dias, não terá forças para defender sua Amazônia Azul amanhã.
3. ECONOMIA DO MAR: O BRASIL QUE FATURA EM ALTO-MAR
Aqui a cultura e o patrimônio encontram o bolso do brasileiro. O Brasil respira e fatura pelo mar:- Comércio: Minério de ferro, soja, carne e petróleo. Quase tudo sai e entra de navio. Santos, Itaguaí e Ponta da Madeira são as torneiras do dinheiro do país.
– Energia: Mais de 80% do petróleo e gás nacional vem do fundo do mar.
– Ciência e Alimento: Cabos de internet, pesca, aquicultura e a futura mineração na plataforma continental. Proteger essa economia exige consciência. Exige entender que se uma rota marítima for bloqueada, o preço do alimento e do combustível explode aqui dentro. Exige entender que a Marinha do Brasil é o “seguro” de 5,7 milhões de km² de Amazônia Azul. Sem ela, o navio não vem, e a riqueza não sai. Por isso, vemos iniciativas como os fóruns patrocinados pela Marinha do Brasil “Horizontes da Economia Azul”.
CONCLUSÃO: RESPIRAR PELO MAR
Cultura Marítima, Patrimônio Histórico e Economia do Mar formam um ciclo. Um depende do outro. Todos juntos fortalecem a soberania nacional! Patrimônio preservado gera consciência e Cultura marítimas. Estas são as bases de apoio político para fortalecer a Economia do Mar, que garante Soberania e riqueza para investir de novo em Patrimônio e Cultura.
O Brasil precisa deixar de ser apenas um país banhado pelo mar. Precisa ser O País do Mar! Isso não acontecerá por decreto. Irá se tornar realidade quando o produtor do Mato Grosso, o estudante de Manaus e o cidadão de Goiânia entenderem juntos: a riqueza que produzimos só chega ao mundo porque existe um navio, um porto, e uma Marinha garantindo. E essa história merece ser lembrada, ensinada e celebrada. Defender o mar é defender emprego, alimento e futuro. É hora do Brasil virar de frente para o seu destino!
*Gilberto S. Kerr é Diretor do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha.






