Por Paulo Ricardo Rodrigues dos Santos*
A Economia do Mar reúne atividades direta ou indiretamente relacionadas ao oceano, incluindo transporte, energia, pesca, defesa, turismo e esportes.
No Brasil, a proximidade entre população e litoral transforma o oceano em elemento econômico, social e cultural. Nesse contexto, a onda pode ser compreendida não apenas como fenômeno físico, mas como ativo natural capaz de gerar experiências, turismo, esporte e serviços.
Uma das formas mais simples de interação com esse ativo é deslizar utilizando o próprio corpo, experiência popularmente associada a “pegar jacaré” e que compartilha o princípio fundamental do bodysurf ou surfe de peito. Essa relação direta cria um contraste com o voo de caça.

Na aviação militar, o piloto opera integrado a uma plataforma tecnológica complexa, submetido a acelerações, elevada carga informacional, alterações de orientação e decisões em curto intervalo.
No bodysurf, o corpo constitui a principal plataforma de interação com um sistema hidrodinâmico variável. O praticante precisa interpretar onda, corrente, batimetria e trajetória da arrebentação, além de enfrentar turbulência e perda temporária de referências. As duas atividades não são mecânica ou fisiologicamente equivalentes.
Entretanto, apresentam convergências funcionais: antecipação, orientação espacial, integração sensorial, controle motor, tomada de decisão e gerenciamento do risco sob reduzida margem para erro.
No caça, essas capacidades são desenvolvidas por seleção, tecnologia e treinamento altamente especializado.

No mar, a experiência com ondas apresenta maior acessibilidade, podendo variar da recreação ao bodysurf de alto desempenho. Sob a ótica da Economia do Mar, essa acessibilidade amplia o valor da onda. Ela pode movimentar turismo, hospedagem, alimentação, transporte, comércio, escolas, equipamentos, treinamento e eventos esportivos, e fortalece cultura marítima, educação e conexão com o oceano.
“Dominar o caos”, portanto, não significa controlar completamente o céu ou o mar. Significa preservar a capacidade de perceber, decidir e agir diante de ambientes dinâmicos. Se o caça representa uma das formas mais tecnológicas dessa adaptação humana, o bodysurf representa sua expressão mais direta: corpo e natureza.
Surge, então, uma questão para a Economia do Mar brasileira: quanto vale uma onda? Não apenas em receita e empregos, mas em sua capacidade de aproximar pessoas do oceano e transformar o mar de paisagem observada em experiência vivenciada.

*Capitão de Fragata Mergulhador de Combate, militar da Marinha do Brasil, Especialista em Operações Especiais Subaquáticas, Coach da Escola de Aquacidade Extrema Leblonfins e Especialista em Proteção Marítima e de Cabos Submarinos.
E-mail: mec183rricardo_rodrigues@hotmail.com

Capitão de Fragata Mergulhador de Combate, militar da Marinha do Brasil, Especialista em Operações Especiais Subaquáticas, Coach da Escola de Aquacidade Extrema Leblonfins e Especialista em Proteção Marítima e de Cabos Submarinos.





