O etanol começa a ganhar espaço em uma disputa que deverá transformar a indústria marítima nas próximas décadas: a escolha dos combustíveis capazes de reduzir as emissões dos navios sem comprometer sua autonomia e capacidade de carga. Nesse cenário, a produção brasileira aparece como uma das alternativas observadas por armadores, fabricantes de motores e grandes embarcadores.
Um dos projetos que colocou o combustível no centro desse debate envolve a Vale e a chinesa Shandong Shipping. As empresas fecharam contratos de 25 anos para dois navios Guaibamax de 325 mil toneladas de capacidade que terão o etanol como combustível principal e deverão começar a ser entregues em 2029. Há opção para encomendas adicionais.
As embarcações terão 340 metros de comprimento e poderão operar também com metanol e óleo combustível, além de terem projeto preparado para futura conversão para GNL ou amônia. Elas incorporarão ainda velas rotativas e outras tecnologias voltadas à redução do consumo energético.
Competitividade
O interesse pelo etanol recebeu impulso adicional com a inclusão de um fator de emissão para o etanol brasileiro de milho de segunda safra nas diretrizes de análise de ciclo de vida utilizadas no debate regulatório da Organização Marítima Internacional. O valor de 20,8 gramas de CO₂ equivalente por megajoule amplia a competitividade ambiental do combustível diante dos derivados fósseis dentro de futuros mecanismos de redução de emissões.
A disponibilidade é outro ponto favorável ao Brasil. Além de possuir uma cadeia de produção de etanol em grande escala, estudos do próprio governo brasileiro já incluem o combustível entre as alternativas possíveis para a descarbonização da cabotagem e da navegação de longo curso nas próximas décadas.
Isso não significa, porém, que o etanol esteja pronto para substituir o bunker em grande escala. Certificação ambiental, disponibilidade nos portos, infraestrutura de abastecimento, preço e regras internacionais ainda terão peso na escolha dos armadores. Na União Europeia, por exemplo, diferenças entre os critérios adotados pelo sistema de comércio de emissões e pelo FuelEU Maritime permanecem entre os pontos a serem equacionados.
Para o Brasil, a discussão cria uma oportunidade que combina energia e economia do mar. Se o etanol conquistar participação relevante entre os combustíveis marítimos, o país poderá atuar não apenas como usuário da tecnologia, mas também como fornecedor de uma fonte energética produzida em escala doméstica para corredores internacionais de navegação.






