A Baía de Todos-os-Santos celebra, neste domingo, 1º de novembro, 525 anos de seu batismo pelos portugueses. A data recorda a chegada de uma expedição europeia em 1501 e a escolha de um nome associado ao calendário católico.
Mais de cinco séculos depois, a baía permanece no centro de decisões que envolvem comércio exterior, mobilidade, turismo, energia e conservação ambiental na Bahia.
O aniversário se refere ao registro histórico do nome, e não à origem da baía ou ao início de sua ocupação humana. Muito antes da chegada dos navegadores europeus, povos indígenas habitavam suas margens e utilizavam suas águas. Conhecida como Kirimurê, a baía já era território de circulação, alimentação e relações entre comunidades.
A denominação portuguesa seguiu o costume de associar lugares à celebração religiosa do dia em que eram avistados. Como o calendário marcava a Festa de Todos os Santos, esse foi o nome atribuído à grande enseada. A memória do 1º de novembro reúne, portanto, diferentes camadas da história de um território cuja existência ultrapassa o marco colonial.
Uma economia construída em torno da água
A posição geográfica e as condições de abrigo para embarcações ajudaram a transformar a baía em um eixo da formação de Salvador e do Recôncavo. A circulação marítima conectou povoações, áreas produtoras e mercados, em uma trajetória também marcada pela escravização de indígenas e africanos.
Hoje, essa centralidade aparece na convivência entre atividades de diferentes escalas. Navios mercantes, embarcações de passageiros, barcos de pesca, marinas e estruturas industriais compartilham um espaço que também abriga ilhas, manguezais e recifes.
O Porto de Salvador integra essa rede com movimentação de contêineres, cargas gerais e produtos como trigo, celulose e frutas, além da recepção de cruzeiros. Sua conexão com os mercados externos depende tanto da infraestrutura no cais quanto dos acessos terrestres e da segurança da navegação.
Aratu-Candeias desempenha uma função complementar, com operações de granéis e atendimento a cadeias petroquímicas, siderúrgicas e de fertilizantes. Terminais privados ampliam a presença da atividade portuária e industrial no entorno da baía.
A economia do mar também está nas atividades que nem sempre aparecem nos grandes indicadores de carga. Pesca artesanal, mariscagem, transporte entre ilhas, passeios náuticos, gastronomia e serviços turísticos sustentam relações de trabalho diretamente dependentes da qualidade ambiental e do acesso à água.
Ponte Salvador–Itaparica abre nova etapa de integração
A Ponte Salvador–Ilha de Itaparica representa uma das principais intervenções previstas para esse território. Com 12,4 quilômetros sobre a água, o projeto integra um sistema rodoviário que inclui acessos em Salvador, intervenções na ilha e conexão com a BA-001.
Em outubro, o Governo Federal formalizou um termo de compromisso de R$ 3 bilhões para as obras, no âmbito do Novo PAC. Segundo a Casa Civil, a travessia pela ponte deverá levar aproximadamente 15 minutos. A redução do percurso de cargas poderá chegar a 200 quilômetros, conforme a origem e o destino.
A ligação tem potencial para alterar os deslocamentos entre a capital, a ilha, o Recôncavo e outras regiões baianas. Seus efeitos econômicos, porém, dependerão da execução do sistema completo e da capacidade de conectar a nova infraestrutura aos serviços e às atividades existentes.
O início oficial das obras foi anunciado pelo Governo da Bahia em julho de 2026. A Secretaria do Meio Ambiente informou a emissão de autorizações ambientais e a existência de condicionantes, programas de monitoramento e medidas de controle para a implantação.
Além da engenharia, o empreendimento coloca em discussão o ordenamento do território. A ampliação da acessibilidade exige atenção à ocupação das margens, à infraestrutura urbana, à navegação e às comunidades que utilizam a baía para trabalhar e se deslocar.
Conservação sustenta a atividade econômica
A biodiversidade é parte da infraestrutura que mantém essa economia. O Inema identifica na região manguezais, remanescentes de Mata Atlântica e recifes de corais. A Área de Proteção Ambiental da Baía de Todos-os-Santos, criada em 1999, reconhece a necessidade de conciliar usos econômicos e conservação.
Esses ambientes oferecem abrigo e alimento para organismos marinhos e sustentam atividades pesqueiras. Sua degradação pode atingir simultaneamente a biodiversidade, a alimentação das famílias e a renda das comunidades costeiras.
Entre os desafios estão o saneamento insuficiente, os resíduos sólidos, a ocupação desordenada e os riscos associados às atividades industriais e portuárias. Em debate realizado no Tribunal de Contas do Estado, em março, esses problemas foram apontados como obstáculos ao desenvolvimento da economia azul baiana.
A pressão também aparece em pesquisas recentes. Um estudo divulgado pelo Jornal da Unicamp em junho identificou microplásticos nos sedimentos de todos os locais analisados no litoral baiano, incluindo a Baía de Todos-os-Santos. O resultado reforça a necessidade de acompanhar fontes de contaminação e seus efeitos.
A pesca predatória é outra ameaça. Em setembro, uma operação do Inema e da Polícia Militar apreendeu explosivos que seriam utilizados em pesca ilegal na baía, demonstrando que a proteção dos recursos exige fiscalização contínua.
Aos 525 anos de seu batismo, a Baía de Todos-os-Santos reúne oportunidades de investimento e responsabilidades que atravessam municípios e setores. O avanço da economia do mar dependerá da capacidade de ampliar a infraestrutura, conservar os ecossistemas e garantir espaço às comunidades que mantêm uma relação cotidiana com suas águas.
O patrimônio celebrado neste 1º de novembro é também a base dos empregos, dos alimentos e das atividades econômicas que a baía poderá sustentar nas próximas décadas.






