Por Carlos Erane de Aguiar*
O Rio de Janeiro não pode mais tratar sua vocação naval como promessa. Ela é uma realidade construída ao longo de décadas, sustentada por estaleiros, portos, empresas de engenharia, universidades, centros de pesquisa, trabalhadores qualificados e pela presença estratégica da indústria de óleo e gás. O que falta não é potencial, mas decisão política, coordenação e continuidade para transformar essa vantagem em política de Estado.
O Estado reúne condições que poucos territórios no Brasil e no mundo oferecem: extensa costa, infraestrutura portuária, tradição industrial, capacidade tecnológica, mão de obra especializada e proximidade com os principais centros econômicos do país. O Porto do Rio, o Porto de Itaguaí, as baías de Guanabara e Sepetiba, os estaleiros, as bases de apoio offshore e instituições como a Universidade Federal do Rio de Janeiro, o Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia e o Centro Tecnológico da Marinha no Rio de Janeiro formam uma plataforma estratégica para projetos de alta complexidade.
Essa estrutura é uma base concreta para gerar desenvolvimento econômico, inovação tecnológica, empregos qualificados e soberania industrial.
A indústria naval movimenta muito mais do que a construção de navios e plataformas. Cada projeto mobiliza metalurgia, caldeiraria, soldagem, engenharia, eletrônica, automação, logística, transporte, serviços ambientais, tecnologia da informação, manutenção e formação profissional. Uma encomenda para um estaleiro beneficia centenas de empresas fornecedoras, movimenta a economia local e cria oportunidades para pequenas e médias empresas.
Por isso, a ausência de uma política consistente tem custo elevado. Cada contrato perdido para outro estado ou país significa empregos não criados, impostos não arrecadados, conhecimento não desenvolvido e empresas com menor capacidade produtiva. Não podemos continuar exportando oportunidades por falta de planejamento, articulação, financiamento ou competitividade.
O Estado precisa agir agora — e com método.
A retomada e a modernização da indústria naval devem ocupar o centro de uma agenda econômica permanente. Isso exige um plano estadual com metas objetivas, prazos, indicadores de desempenho e participação efetiva do poder público, das empresas, dos trabalhadores, das universidades e das entidades representativas.
Não basta reconhecer a importância do setor. É preciso criar condições para que ele produza, invista e cresça: melhorar o ambiente de negócios, tornar o licenciamento mais eficiente, garantir segurança jurídica, ampliar o acesso a crédito, modernizar a infraestrutura, oferecer incentivos vinculados a resultados e estabelecer políticas de compras que valorizem a produção nacional.
O Rio de Janeiro precisa recuperar e ampliar sua capacidade de construir, reparar e modernizar embarcações. A demanda existe e tende a crescer. A frota de apoio marítimo precisa ser renovada, a navegação de cabotagem pode avançar e a indústria de óleo e gás continuará exigindo embarcações, plataformas, manutenção e soluções offshore. A transição energética também abrirá mercados para navios de apoio a parques eólicos marítimos, sistemas de armazenamento, combustíveis de baixo carbono e tecnologias de redução de emissões.
Essas oportunidades, porém, não serão automaticamente capturadas pelo Estado. A competição é concreta e será vencida por quem oferecer produtividade, inovação, qualificação profissional, infraestrutura e capacidade de execução.
A formação de mão de obra deve ser prioridade estratégica. É necessário ampliar cursos técnicos e de engenharia, fortalecer a educação profissional, aproximar escolas e empresas e criar programas permanentes de qualificação em soldagem, montagem, projeto, automação, robótica, manutenção, segurança, gestão e tecnologia digital.
A indústria naval do futuro será mais tecnológica, automatizada e sustentável. O Rio de Janeiro precisa estar na fronteira dessa transformação, investindo em pesquisa aplicada, digitalização, fabricação avançada, inteligência artificial, novos materiais, eficiência energética e combustíveis de menor impacto ambiental.
Universidades e centros de pesquisa devem estar conectados às necessidades das empresas, transformando conhecimento em produtos, serviços e soluções comercializáveis. A inovação precisa chegar aos estaleiros, às oficinas, aos fornecedores e às operações marítimas.
A transição energética deve ser encarada como oportunidade histórica. O Estado pode liderar o desenvolvimento de embarcações híbridas e elétricas, sistemas de propulsão eficientes, equipamentos para energia eólica offshore, soluções de redução de emissões e tecnologias voltadas à economia azul. Para isso, é indispensável antecipar tendências, estimular investimentos e criar um ambiente favorável à inovação.
Os governos estaduais e municipais têm responsabilidade decisiva: coordenar ações, priorizar investimentos, reduzir entraves burocráticos e defender, em Brasília, políticas nacionais que assegurem demanda e financiamento para o setor. É necessário transformar discursos em projetos, projetos em contratos e contratos em empregos.
As empresas devem investir em produtividade, qualificação, inovação e cooperação. A competitividade não pode depender apenas de incentivos. É preciso modernizar processos, formar consórcios, integrar fornecedores e buscar padrões internacionais de qualidade, segurança e sustentabilidade.
As instituições de ensino e pesquisa devem formar profissionais e desenvolver tecnologias alinhadas às necessidades do mercado. Os trabalhadores precisam ser reconhecidos como parte central dessa estratégia, pois não existe indústria naval forte sem conhecimento acumulado, experiência prática e valorização profissional.
O Cluster Tecnológico Naval do Rio de Janeiro pode exercer papel decisivo nessa articulação, aproximando os diferentes atores, identificando oportunidades, estimulando parcerias, defendendo políticas públicas e acompanhando a execução de uma agenda objetiva. O diálogo é indispensável, mas o momento exige também cobrança, compromisso, coordenação e resultados mensuráveis.
A chamada à ação é direta: o poder público deve estabelecer uma política permanente para a indústria naval; as empresas devem investir, inovar e cooperar; universidades e centros de pesquisa devem transformar conhecimento em soluções; instituições financeiras devem ampliar o crédito para projetos produtivos; os trabalhadores devem ser valorizados e qualificados; e a sociedade precisa reconhecer o setor como estratégico para o desenvolvimento econômico, tecnológico e social do Estado.
O Rio de Janeiro não precisa construir do zero uma vocação naval. Ela já foi comprovada por sua história, infraestrutura e profissionais. O desafio é convertê-la em crescimento contínuo, empregos de qualidade, inovação e soberania produtiva.
Não podemos esperar que as oportunidades desapareçam para lamentar a perda de investimentos. Tampouco aceitar que projetos sejam executados longe de uma estrutura que já existe e pode ser ampliada. A falta de coordenação não pode condenar o Estado à condição de espectador enquanto outros territórios avançam.
É hora de definir prioridades, unir esforços e agir.
O futuro da indústria naval brasileira passa pelo Rio de Janeiro. Mas não será garantido pela tradição. Será conquistado por decisões concretas, investimentos consistentes e compromisso permanente com a produção, a inovação e o emprego.
A hora de assumir o protagonismo é agora. O Rio de Janeiro tem os ativos, a competência e a oportunidade. Falta transformar tudo isso em ação coordenada. Governos, empresas, trabalhadores, universidades, instituições financeiras e sociedade precisam assumir sua responsabilidade e construir uma nova agenda naval para o Estado.
*Presidente do Conselho de Administração do Cluster Tecnológico Naval do Rio de Janeiro.






