Por Aléssio Almada da Costa*
Com cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados, a Amazônia Azul responde por mais de 97% da produção nacional de petróleo, 85% do gás natural e aproximadamente 95% do comércio exterior brasileiro. Esses indicadores consolidam o mar como eixo econômico e logístico do país, mas seu futuro também dependerá da capacidade brasileira de transformar conhecimento científico em tecnologias proprietárias, empresas e novas cadeias produtivas.
Essa agenda não interessa apenas às atividades offshore. Mais da metade da população brasileira vive em uma faixa de até 150 quilômetros da costa, conectando a economia do mar a cidades, portos, universidades, indústrias, pesca, turismo e serviços.
Nesse contexto, ganham relevância as deep techs: empresas cuja vantagem competitiva nasce de avanços científicos ou de engenharia e que, em geral, enfrentam maior risco tecnológico, ciclos mais longos de pesquisa e validação e necessidade de infraestrutura especializada e capital paciente. No ambiente marinho, podem atuar em biotecnologia, robótica, novos materiais, energia, sensores e inteligência artificial.
O Brasil já possui uma base importante. O Deep Tech Radar Brasil 2025, da Emerge, identificou 952 deep techs, das quais aproximadamente 56% têm origem acadêmica. Estudo do INPI com base nesse universo indica que cerca de 70% geraram pedidos de patente.
Esse dado merece atenção. Para uma empresa científica, propriedade intelectual não é apenas proteção jurídica: pode representar um ativo para captar investimento, licenciar tecnologias, estabelecer parcerias e competir internacionalmente. Quando o conhecimento produzido no país gera propriedade intelectual nacional, aumenta também a possibilidade de reter valor, desenvolver capacidade produtiva e negociar tecnologia em melhores condições.
A experiência europeia oferece uma referência. O European Innovation Council combina financiamento público e capital privado para tecnologias de fronteira. Segundo seu relatório de 2026, as empresas apoiadas apresentaram, nos dois primeiros anos, 68% de crescimento do emprego e 142% de crescimento das receitas. Para cada euro investido pelo EIC Fund, outros € 3,50 foram mobilizados.
Os números não permitem atribuir todo esse desempenho ao apoio público, mas sugerem o potencial de políticas continuadas capazes de conectar ciência, empresa e capital.
O Brasil também dispõe de instrumentos importantes, tais como: FNDCT, Nova Indústria Brasil, universidades, Finep, BNDES, empresas e investidores privados podem compor uma trajetória mais contínua entre pesquisa, validação, industrialização e mercado. Para tecnologias ligadas ao mar, essa articulação é particularmente relevante, pois muitas dependem de plantas-piloto, embarcações, laboratórios e ambientes reais de teste.
Mais do que criar novas estruturas, talvez o desafio seja organizar esses instrumentos em uma estratégia de longo prazo para tecnologias relacionadas à Amazônia Azul, com prioridades, continuidade de financiamento e aproximação entre ciência e demanda empresarial.
Soberania tecnológica não significa produzir tudo internamente, significa, também, possuir conhecimento, propriedade intelectual e empresas capazes de desenvolver tecnologias estratégicas, reduzir dependências e participar do mercado global em melhores condições.
A Amazônia Azul, portanto, não deve ser avaliada apenas pelos recursos que contém. Seu valor futuro dependerá também da capacidade do Brasil de transformar conhecimento sobre o mar em propriedade intelectual, tecnologia, empresas e capacidade produtiva.
*Professor e pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Há mais de 12 anos atua no desenvolvimento de empresas de base tecnológica, startups, deep techs e negócios de impacto, tendo coordenado programas de empreendedorismo, incubação, inovação aberta e projetos de desenvolvimento tecnológico.





