O Brasil ocupa a quarta posição mundial em potencial de investimentos em indústria limpa, atrás de China, Índia e Austrália. O país reúne 33 projetos que representam US$ 310,1 bilhões em aportes potenciais, segundo a atualização do Global Project Tracker, da Mission Possible Partnership (MPP), apoiado pelo Industrial Transition Accelerator (ITA).
O portfólio brasileiro inclui 24 projetos de amônia limpa, quatro de metanol verde, três instalações operacionais de alumínio limpo e duas usinas de combustível sustentável de aviação, conhecido pela sigla SAF. Do valor total mapeado, US$ 221,4 bilhões correspondem à infraestrutura de energia renovável e US$ 88,6 bilhões aos ativos de produção industrial.
Os números representam investimentos potenciais em projetos em diferentes estágios de desenvolvimento. Sua concretização depende de condições como acesso a financiamento, contratos de compra da produção e segurança regulatória.
Para a economia do mar, a presença de projetos de amônia e metanol aproxima o levantamento da agenda de transição energética do transporte marítimo. Além da produção industrial, o desenvolvimento dessas cadeias envolve necessidades de armazenagem, movimentação e conexão com mercados consumidores, atividades nas quais a infraestrutura portuária tem papel relevante.
Projeto na Bahia avança para decisão de investimento
Entre os destaques brasileiros está o projeto da Acelen Renováveis em São Francisco do Conde, na Bahia. Segundo a atualização do rastreador, o empreendimento alcançou a decisão final de investimento — etapa conhecida como FID —, com US$ 540 milhões assegurados para seu ativo de produção industrial.
A biorrefinaria, cujo investimento total informado é de US$ 1,5 bilhão, conta com apoio do ITA e prevê o uso de óleo de macaúba na produção de SAF. A proposta é utilizar a matéria-prima nativa sem competir com culturas alimentares.
O combustível de aviação foi o principal responsável pelo avanço dos projetos industriais limpos no levantamento global. Nos últimos 12 meses, 36 instalações chegaram à decisão final de investimento, somando US$ 50 bilhões em compromissos. Metade dessas novas decisões corresponde a projetos de SAF.
Economias emergentes ampliam participação
O levantamento aponta uma mudança na distribuição dos investimentos, com maior participação de países que dispõem de recursos renováveis abundantes. A China concentrou 22 das 36 novas decisões finais de investimento, equivalentes a US$ 45 bilhões.
Em outro recorte, economias emergentes do chamado Industrial Sunbelt, ou “Cinturão do Sol Industrial”, asseguraram US$ 5,3 bilhões em seis instalações de grande escala. O grupo, que inclui Brasil, Paraguai, Quênia, Egito, Tailândia e África do Sul, superou pela primeira vez as economias desenvolvidas, que reuniram US$ 4,8 bilhões em seis projetos no mesmo período.
Para Faustine Delasalle, CEO da MPP e diretora executiva do ITA, países ricos em recursos renováveis estão convertendo essa disponibilidade em produção industrial, empregos e receitas. Ela avalia, porém, que o ritmo precisa crescer de dezenas para centenas de instalações financiadas por ano.
Contratos e regulação são decisivos
No Brasil, o desafio é transformar o portfólio anunciado em unidades operacionais. Segundo Marc Farre Moutinho, líder do ITA no país, a combinação de renováveis, biomassa e experiência nos setores agrícola e energético oferece condições favoráveis para esse avanço.
Moutinho aponta a ampliação dos contratos de compra de longo prazo, conhecidos como offtake agreements, e a construção de regras estáveis como fatores necessários para dar previsibilidade aos investidores e facilitar o financiamento.
Globalmente, o portfólio de projetos de indústria limpa que ainda precisa ser convertido em ativos financiados soma US$ 4,8 trilhões. Para acelerar esse processo, a MPP propõe ações em seis frentes: mercados, energia, cadeias de suprimento, comunidades, comércio e finanças.






