Por Pedro Bobião*
Potencial não paga salários, não fecha contratos e não coloca tecnologia no mercado. O Brasil tem condições para liderar a economia azul. A questão é como transformar essas condições em indústria, empregos e capacidade de exportação.
O país reúne recursos aquáticos, biodiversidade, universidades, capacidade agroindustrial e um grande mercado. Essa combinação pode sustentar indústrias de alimentos, equipamentos, biotecnologia e serviços. Falta organizar as condições para que esse potencial chegue à produção.
A Noruega interessa pelo destino que deu à riqueza do petróleo: usou um recurso que se esgota para construir atividades que se renovam. Os clusters regionais fazem parte dessa construção, aproximando empresas, pesquisa e investimento. Entre 2020 e 2025, o valor das exportações de pescado em coroas cresceu cerca de 72%, chegando a 181,5 bilhões de coroas norueguesas, aproximadamente 18 bilhões de dólares.
Na Arábia Saudita, a riqueza do petróleo fortalece o Fundo de Investimento Público (PIF), instrumento da diversificação econômica. A aposta inclui a aquicultura. As zonas econômicas especiais seguem uma lógica de clusters, concentrando atividades, fornecedores e infraestrutura em territórios escolhidos.
Defendo a clusterização regional como uma das formas mais rápidas e eficazes de transformar inovação em indústria. O trabalho começa pelo território: ouvir quem produz, identificar onde a cadeia falha e escolher oportunidades com mercado. Depois, é preciso conectar ciência, empresas, capital e instituições públicas, estruturar projetos e acompanhar a execução.
O Paraná, líder brasileiro na produção de tilápia, oferece uma referência próxima, com produtores, cooperativas e indústria conectados em uma mesma cadeia produtiva. Outras regiões podem construir seus caminhos a partir das competências que já têm.
Na aquicultura, crescer exige alevinos, controle sanitário, ração, processamento, transporte e compradores. Financiar apenas uma etapa pode aumentar a vulnerabilidade das demais. Um cluster permite olhar para a cadeia inteira e organizar investimentos complementares.
A coordenação ganha tempo. Enquanto se testa uma tecnologia, é possível negociar com o comprador, preparar o financiamento e definir a operação. Serviços e infraestrutura compartilhados reduzem duplicidades e ajudam empresas menores a chegar ao mercado.
Cada região precisa de prioridades, gestão e continuidade. E deve abrir espaço para a indústria, a tecnologia e os investidores que ainda não se reconhecem na economia azul.
Água, biodiversidade e comunidades sustentam essa economia. Preservá-las faz parte da viabilidade do negócio.
O Brasil pode ocupar um lugar central nas novas cadeias globais da economia azul. Os clusters podem acelerar esse caminho, transformando conhecimento em produção, desenvolvendo fornecedores e gerando empregos no país.
*Diretor executivo da Vide de Grunwald.






