O cultivo da macroalga Kappaphycus alvarezii vem abrindo uma nova frente econômica para comunidades que vivem da maricultura em Florianópolis. Produzida em fazendas instaladas no mar, a espécie serve de matéria-prima para biofertilizantes, alimentos, cosméticos e diferentes aplicações industriais.
A atividade ganhou espaço principalmente no Ribeirão da Ilha, região tradicionalmente associada ao cultivo de ostras e mexilhões. A experiência acumulada pelos maricultores ajudou na adaptação das técnicas necessárias para produzir a alga em escala comercial.
Originária das Filipinas, a Kappaphycus alvarezii foi introduzida no Brasil no fim da década de 1990. Em Santa Catarina, o cultivo comercial foi autorizado pelo Ibama em 2020, seguindo regras que delimitam as áreas permitidas e estabelecem medidas de controle ambiental.
Como funciona o cultivo no mar
As mudas são fixadas manualmente em cabos mantidos próximos à superfície da água. Em uma estrutura de 50 metros, podem ser colocadas cerca de 750 mudas. Em condições favoráveis de temperatura e salinidade, a alga apresenta crescimento diário entre 5% e 7%, podendo alcançar índices maiores.
O ciclo entre o plantio e a colheita dura aproximadamente 30 dias. Ao fim desse período, um único cabo pode render cerca de 200 quilos de biomassa. Parte do material colhido é reservada para iniciar um novo ciclo, enquanto o restante segue para beneficiamento.
Algumas fazendas marinhas já utilizam equipamentos desenvolvidos pelos próprios produtores para retirar as algas dos cabos. A mecanização torna a colheita mais rápida, mas o plantio ainda depende de trabalho manual, considerado um dos principais gargalos para a expansão da atividade.
Produção abastece mercado de biofertilizantes
O principal destino da alga produzida em Santa Catarina é a fabricação de extratos usados pela indústria de fertilizantes e bioestimulantes agrícolas. Aplicados em lavouras, esses produtos podem auxiliar o desenvolvimento das plantas e aumentar sua resistência a situações de estresse, como calor, seca e variações climáticas.
A espécie também é fonte de carragenana, substância com propriedades espessantes, estabilizantes e gelificantes. O composto é empregado pelas indústrias alimentícia, farmacêutica, cosmética, química e têxtil.
Outras possibilidades incluem o desenvolvimento de pães, massas, geleias, patês, cosméticos e rações. A diversificação é considerada importante para aumentar o valor da produção e evitar que os algicultores dependam de um único comprador ou segmento industrial.
Nova fonte de renda para maricultores
A cadeia produtiva da macroalga também representa uma alternativa de trabalho para famílias já ligadas ao mar. Produtores de ostras e mexilhões podem aproveitar embarcações, áreas de cultivo e conhecimentos adquiridos ao longo de anos de atividade.
Santa Catarina é hoje o principal polo brasileiro de produção da Kappaphycus alvarezii. De acordo com dados citados pelo UOL em 2026, o cultivo nacional está em torno de 1,1 mil toneladas anuais e permanece concentrado em Santa Catarina, Rio de Janeiro e São Paulo, estados onde a produção da espécie é autorizada pelo Ibama.
O crescimento, porém, depende da consolidação de compradores, do desenvolvimento de novos produtos e da capacidade de enfrentar as variações do ambiente marinho. Chuvas intensas podem reduzir a salinidade da água, enquanto ventos fortes e ondas aumentam o risco de desprendimento das mudas.
A expansão das fazendas de algas mostra como a maricultura pode avançar além dos moluscos e gerar novas cadeias de valor. Para que esse mercado cresça de forma sustentável, será necessário combinar pesquisa, controle ambiental, capacitação dos produtores e maior integração entre o cultivo no mar e as indústrias que utilizam a biomassa.






