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O próximo ciclo econômico do Ceará está no mar?

Por Rômulo Alexandre Soares e Elis T. Öberg*

Desde 2017, a participação do Ceará no PIB brasileiro deixou de avançar. Depois de alcançar 2,25%, voltou a rondar os 2%. O dado traz uma provocação: quais novas frentes podem ampliar nossa base produtiva, gerar tecnologia, empregos qualificados e reter mais valor no Estado?

Uma das respostas pode estar no mar. O Plano Nacional de Energia 2055, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), ajuda a enxergar por quê. Seus mapas revelam uma combinação particularmente relevante no Ceará e em seu entorno: áreas favoráveis à geração eólica offshore, elevada disponibilidade solar, forte potencial eólico em terra e perspectivas geológicas relacionadas às bacias sedimentares da Margem Equatorial brasileira.

Cada recurso possui desafios e graus de maturidade distintos. Mas, vistos em conjunto, apontam para algo maior: a possibilidade de formação de uma nova economia associada ao mar, tendo o Ceará em posição geográfica privilegiada. A Margem Equatorial amplia ainda mais essa perspectiva.

O avanço da exploração offshore no Norte e Nordeste pode criar uma demanda regional por portos, embarcações, logística, engenharia, manutenção, tecnologia, pesquisa e serviços especializados. A questão estratégica, portanto, não é apenas saber quais recursos serão explorados ou quanta energia será produzida, mas onde ficará o valor econômico gerado por essas atividades.

O Ceará reúne ativos importantes para disputar esse espaço: o Pecém, experiência em energias renováveis, universidades e centros de pesquisa, conexão internacional e posição privilegiada entre a América do Sul, Europa, África, Caribe e América do Norte.

Por isso, talvez seja hora de estruturar um Cluster Naval e de Energias Offshore, reunindo empresas, academia e poder público para desenvolver competências em logística, engenharia, embarcações, componentes, inovação, serviços especializados e formação profissional. Essa estratégia não deve olhar apenas para as águas cearenses.

Projetos no Rio Grande do Norte, Piauí, Maranhão, Pará e demais áreas da Margem Equatorial poderão demandar infraestrutura e suporte operacional. O Ceará pode se posicionar como plataforma regional de serviços para essa nova fronteira marítima.

Tudo isso deve avançar com planejamento espacial marinho, avaliação ambiental, proteção da biodiversidade e diálogo com comunidades costeiras. Desenvolvimento e conservação precisam caminhar juntos.

O próximo ciclo econômico do Ceará pode estar no mar. Os recursos estão mapeados. A oportunidade está se desenhando. O que ainda precisa ser construído é a capacidade do Ceará de transformar essa posição em conhecimento, serviços, indústria e prosperidade.

*Rômulo Soares, advogado, especialista em Direito do Mar e Direito Internacional e presidente da Câmara Setorial de Economia Azul da Adece. Elis Öberg, Almirante de Esquadra da reserva, Doutor em Ciências Navais, ex-Comandante de Operações Navais, ex-Presidente da Junta Interamericana de Defesa e Membro da Câmara Setorial de Economia Azul da Adece.

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