Por Jean Martins*
Pode parecer contraditório dizer que a economia do mar começa na terra. Mas basta olhar para a agricultura para perceber como esses dois ambientes estão cada vez mais conectados.
No campo, produtividade não depende apenas de fornecer nutrientes. As plantas enfrentam altas temperaturas, períodos de seca, radiação intensa, salinidade e outros estresses que interferem diretamente em seu metabolismo e potencial produtivo. É nesse cenário que compostos naturais provenientes de macroalgas vêm ganhando espaço no desenvolvimento de novas tecnologias agrícolas.
Entre elas está a Kappaphycus alvarezii, macroalga tropical que cresce em um ambiente marcado por variações de luminosidade, temperatura, salinidade e movimento da água.
Sua composição desperta interesse pela diversidade de substâncias presentes na biomassa. A Kappaphycus é fonte de carragenanas e outros polissacarídeos, além de aminoácidos, minerais e diferentes compostos bioativos que podem ser aproveitados na produção de extratos para a agricultura.
Quando essa biomassa é processada adequadamente, o objetivo não é simplesmente fornecer “nutrição” à planta. O interesse agronômico está também na interação desses compostos com processos fisiológicos relacionados ao crescimento, desenvolvimento e respostas às condições ambientais.
É uma mudança importante de conceito.
Em vez de pensar somente em quanto nutriente adicionamos, passamos a discutir como favorecer a eficiência fisiológica da planta, principalmente quando submetida a condições que limitam seu potencial produtivo.
Isso ajuda a explicar o crescente interesse por extratos de algas e outros bioinsumos. Eles não substituem água, fertilidade, genética ou um manejo agronômico bem realizado. São ferramentas complementares em sistemas produtivos cada vez mais tecnificados.
E é justamente aqui que mar e terra se encontram.
Uma biomassa cultivada no oceano pode ser transformada pela ciência e pela indústria em tecnologia utilizada no tratamento de sementes, aplicação foliar, sulco de plantio ou em diferentes estratégias de manejo.
A economia azul, portanto, não termina quando a alga deixa o mar. Em muitos casos, é justamente nesse momento que uma nova cadeia de valor começa.
Do oceano nasce a biomassa. Da pesquisa vem o conhecimento. Da indústria, a tecnologia. E é no campo que essa conexão pode se transformar em produtividade, inovação e desenvolvimento.
*Engenheiro agrônomo.
jeanfmartins@hotmail.com






