Um amplo levantamento sobre a composição química da água do mar identificou a presença disseminada de substâncias produzidas pela atividade humana na matéria orgânica dissolvida dos oceanos. A pesquisa analisou 2.315 amostras coletadas entre 2017 e 2022 e encontrou assinaturas químicas de 248 compostos, entre produtos industriais, medicamentos e pesticidas.
Publicado na revista Nature Geoscience e repercutido na quinta-feira, 13 de agosto, pela Agência FAPESP, o estudo reuniu informações provenientes de diferentes regiões dos oceanos Índico, Atlântico Norte, Pacífico Central e Oriental, além do Mar Báltico e do Caribe. A maior parte dos compostos identificados está relacionada à produção de plásticos e a outras atividades industriais.
A presença das substâncias de origem humana é significativamente maior nas regiões costeiras. Nesses locais, a assinatura química dos compostos ultrapassou 20% da composição analisada e chegou a 76% em pontos onde rios que recebem efluentes domésticos e industriais encontram o mar. Mesmo em áreas de oceano aberto, distantes dos principais centros urbanos, o estudo encontrou um sinal médio de 0,5%.
Poluentes industriais
Entre os poluentes industriais, predominam substâncias associadas à indústria petroquímica, como ftalatos, polialquileno glicóis e organofosfatos. Os cinco compostos industriais mais frequentes apareceram em mais de 30% das amostras avaliadas. Já os resíduos farmacêuticos se concentraram principalmente em estuários e áreas próximas a regiões urbanizadas.
Também foram identificados metabólitos de medicamentos utilizados no tratamento de hipertensão, ansiedade e outras doenças. Cinco deles apareceram em 10% a 37% das amostras. Entre os pesticidas e substâncias utilizadas como repelentes, o DEET foi encontrado em 30% do material analisado.
Os pesquisadores destacam que a técnica utilizada identifica a presença e a participação relativa das substâncias, mas não determina a concentração exata de cada composto na água. Por isso, os resultados funcionam como um grande mapa da dispersão química causada pela atividade humana e abrem caminho para estudos direcionados aos impactos sobre ecossistemas marinhos e o ciclo do carbono.
Para o Brasil, há ainda uma lacuna importante. O Atlântico Sul não integrou o levantamento por falta de dados produzidos com a mesma metodologia. A ampliação das análises para essa região poderá ajudar a compreender como efluentes urbanos, atividades industriais e outros vetores de poluição afetam as águas que banham a costa brasileira.






