O Brasil reúne conhecimento científico, modelos e capacidade operacional para avançar na produção de inteligência oceânica. O desafio, agora, é reconhecer o valor estratégico dos dados gerados no país e transformá-los em informações úteis para a formulação de políticas públicas e a tomada de decisões.
A avaliação foi apresentada pela diretora de Infraestrutura e Operações do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo), Janice Trotte-Duhá, durante o evento “Rumo ao Rio 2027: a Década do Oceano em chave de tecnologia, dados e inovação”. O encontro foi promovido na segunda semana de julho pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio).
Ao participar do painel “Do dado à decisão: infraestrutura de dados e gêmeos digitais do Atlântico Sul”, Janice defendeu a construção de uma inteligência oceânica nacional.
“Temos modelos e temos capacidade operacional. O que falta é atribuir valor a esses dados. O Brasil tem uma enorme liderança acadêmica, que gera dados extremamente relevantes, mas precisamos traduzir, reconhecer e dar o devido valor ao dado oceânico gerado”, afirmou.
Segundo a diretora, esse trabalho envolve duas etapas principais. A primeira consiste em repatriar dados oceanográficos produzidos por diferentes instituições. A segunda é garantir a interoperabilidade dessas informações, para que possam ser reunidas, cruzadas e utilizadas de maneira eficiente.
Gêmeo Digital do Atlântico Sul
Entre as iniciativas discutidas no encontro esteve o desenvolvimento do Gêmeo Digital do Atlântico Sul. A proposta considera que modelos criados para o Atlântico Norte não podem ser simplesmente replicados em uma região com características oceanográficas e ecológicas próprias.
A plataforma deverá representar as particularidades do Atlântico Sul e produzir informações mais precisas para atividades de pesquisa, monitoramento e gestão. Dados sobre agitação marítima, coletados por boias oceanográficas e outros sistemas, por exemplo, poderão alimentar interfaces digitais voltadas ao apoio de decisões públicas.
Uma das aplicações possíveis seria integrar essas informações aos centros de operações das cidades. Com isso, gestores poderiam antecipar eventos como ressacas e adotar medidas para reduzir seus efeitos sobre a população, a infraestrutura urbana e as atividades econômicas.
Preparação para a conferência de 2027
Janice também chamou a atenção para a necessidade de acelerar a articulação nacional antes da Conferência da Década do Oceano, prevista para 2027.
“Se quisermos chegar em 2027 preparados, não podemos esperar 2027 chegar”, advertiu.
O Inpo lidera a atualização do Plano Nacional de Implementação da Década do Oceano. Como parte desse processo, pesquisadores, gestores, organizações e outros setores da sociedade podem participar das Oficinas Livres da Década do Oceano, contribuindo para a definição das prioridades brasileiras para os próximos anos.
Dados oceânicos como ativos estratégicos
Os demais participantes do painel apresentaram diferentes perspectivas sobre a aplicação da tecnologia na agenda oceânica. O diretor-executivo do ITS Rio, Fabro Steibel, ressaltou o potencial econômico dos dados e a importância de gerar valor a partir deles. Para ilustrar as possibilidades dos gêmeos digitais, comparou essas plataformas a ferramentas já incorporadas ao cotidiano, como os aplicativos de navegação.
O cofundador da 2811, Waldo Soto, apresentou projetos relacionados ao empreendedorismo azul e ao envolvimento de jovens na preparação para a conferência de 2027.
Bernardo Ainbinder, subsecretário de Ciência, Tecnologia e Inovação da Prefeitura do Rio de Janeiro, defendeu que o evento internacional seja aproveitado para deixar um legado permanente para a cidade. Anita Valle, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destacou a necessidade de aproximar da sociedade o conhecimento produzido nas universidades.
Com informações do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (Inpo).






