Por Josemar Rodrigues de Souza*
O setor marítimo global enfrenta desafios diários em suas operações logísticas, portuárias e na proteção da infraestrutura offshore. Historicamente, identificar alvos dinâmicos no mar e estimar com precisão o seu posicionamento global (GPS) tem sido um grande desafio técnico, especialmente quando as operações dependem exclusivamente de dados e sensores a bordo. No entanto, uma inovação brasileira a ser apresentada na ARAMUSS 2026 promete mudar as regras do jogo.
A utilização de UAVs e USVs, aliado à visão computacional, tornou-se uma opção tática essencial para garantir a segurança e a proteção das fronteiras marítimas.
Desenvolvida no escopo do Projeto Xaréu, uma nova arquitetura de hardware e software permite que Veículos Aéreos Não Tripulados (UAVs) e Veículos de Superfície Não Tripulados (USVs) identifiquem, rastreiem e mapeiem alvos marítimos de forma autônoma. Um avanço formidável para missões no vasto e imprevisível ambiente da Economia Azul.
A pesquisa é desenvolvida por um corpo de especialistas da Universidade do Estado da Bahia, liderada pelo Professor Doutor Josemar Rodrigues de Souza.
A iniciativa conta com a expertise do ACSODEFENSE – núcleo de pesquisa voltado a defesa e segurança, com foco no desenvolvimento de soluções táticas avançadas. A organização possui vasta experiência na pesquisa e implementação de arquiteturas complexas para UAVs e USVs, garantindo superioridade tecnológica em missões de monitoramento e proteção costeira.
Como funciona a tecnologia?
A inovação reside em um ecossistema desacoplado baseado no Sistema Operacional de Robôs 2 (ROS 2). A tecnologia utiliza a rede neural para realizar a detecção de objetos em tempo real por meio de visão computacional.
Na prática, o sistema sincroniza a telemetria de voo do UAV com a matriz da câmera. “Ao invés de depender de estimativas externas, o sistema projeta raios matemáticos a partir da câmera do UAV para calcular as coordenadas globais exatas do alvo”, explicam os desenvolvedores na pesquisa. A arquitetura processa dados de percepção visual e telemetria de forma assíncrona, eliminando gargalos computacionais.
Resultados que impressionam
O aspecto mais revolucionário da tecnologia a ser apresentada na ARAMUSS 2026 é a sua precisão. Testes iniciais revelaram que desalinhamentos geométricos causavam um erro sistêmico de aproximadamente 19,12 metros no posicionamento dos alvos. Após uma rigorosa auditoria e refinamento matemático, a equipe conseguiu reduzir esse erro de projeção de 19,12 metros para incríveis centímetros.
Esse nível de precisão atinge limites de precisão de máquina, comprovando a lógica de transformação espacial 3D do sistema. Além disso, a arquitetura realiza conversões geodésicas complexas para fornecer coordenadas rigorosas, evitando as imprecisões de aproximações que consideram a “Terra plana”.
Para a logística marítima, a energia offshore e o setor portuário, os impactos são imensos. A capacidade de enviar um drone para o mar aberto e obter coordenadas exatas e em tempo real de embarcações, alvos, infraestruturas ou anomalias—com processamento a bordo e precisão milimétrica—oferece uma base robusta e escalável para aplicações táticas no mundo real.
A pesquisa dos cientistas baianos demonstra que o futuro da Economia no Mar será pautado pela autonomia inteligente, onde a tecnologia nacional desponta como referência internacional em eficiência e segurança.
*Doutor (Ph.D.) em Informática e Mestre em Arquitetura de Computadores e Processamento Paralelo pela Universidad Autónoma de Barcelona (UAB), com Pós-Doutorado em Robótica Autônoma pela Universidade do Porto (FEUP/LIACC).






