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Do petróleo ao vento: o conhecimento offshore que o Brasil já possui

Por Rodolfo Gonçalves*

Quando se fala no desenvolvimento da eólica offshore no Brasil, é comum ouvir que estamos diante de uma indústria completamente nova. Em parte, é verdade: ainda não temos uma turbina eólica operando em águas brasileiras.
Mas isso não significa que estamos começando do zero.

Poucos países conhecem tão bem os desafios de construir e operar no mar quanto o Brasil. Décadas de desenvolvimento do petróleo offshore criaram competências em engenharia oceânica, construção naval, sistemas de ancoragem, operações marítimas, logística, inspeção, manutenção, segurança e monitoramento ambiental.

Criaram também portos, estaleiros, universidades, centros de pesquisa, empresas especializadas e, principalmente, milhares de profissionais acostumados a resolver problemas no ambiente offshore. Esse conhecimento pode ser uma vantagem estratégica para a próxima indústria marítima brasileira. Mas não precisa desperdiçar o conhecimento que o Brasil levou décadas para construir no mar.

Transferir conhecimento, não copiar soluções

Uma plataforma de petróleo e uma turbina eólica são sistemas muito diferentes.
O petróleo offshore brasileiro foi construído em torno de projetos de enorme complexidade e alto valor individual. A eólica offshore precisa de outra lógica: dezenas ou centenas de unidades, padronização, repetibilidade, velocidade de fabricação e operações cada vez mais industrializadas.

Por isso, a transição não acontecerá simplesmente substituindo uma plataforma de petróleo por uma turbina. Precisamos identificar quais competências são transferíveis. Planejamento de operações marítimas, conhecimento meteoceanográfico, reboque, ancoragem, inspeções, logística offshore, gestão de interfaces, segurança operacional e manutenção são exemplos de áreas em que décadas de experiência podem encurtar nossa curva de aprendizado.

Ao mesmo tempo, teremos que aprender novas formas de fabricar, montar e operar em escala.

Uma oportunidade para a indústria do mar

Essa discussão é especialmente importante porque offshore wind não deveria ser vista apenas como uma nova fonte de energia.
Ela pode representar uma nova demanda para a economia marítima brasileira. Portos podem se transformar em bases de montagem e operação. Estaleiros podem fabricar estruturas e componentes. Embarcações podem ganhar novas funções. Empresas que hoje atendem óleo e gás podem desenvolver serviços para eólica offshore. Universidades podem formar uma nova geração de engenheiros, técnicos e pesquisadores.

No caso da eólica flutuante, essa conexão pode ser ainda maior. Plataformas, sistemas de ancoragem, reboque, integração em porto e operações offshore dialogam diretamente com competências que o Brasil desenvolveu ao longo de décadas. Mas essa vantagem só existirá se soubermos utilizá-la.

O objetivo não deve ser abandonar uma indústria para construir outra. O mar brasileiro continuará abrigando diferentes atividades econômicas. A oportunidade está justamente em ampliar nossa capacidade de produzir valor a partir do oceano.

Talvez, portanto, a pergunta não seja como o Brasil começará uma indústria offshore completamente nova.
A pergunta mais interessante é: como podemos transformar décadas de conhecimento construído no petróleo em uma vantagem competitiva para a era do vento?

A transição energética pode mudar a fonte de energia. Mas não precisa desperdiçar o conhecimento que o Brasil levou décadas para construir no mar.

*Rodolfo Gonçalves possui bacharelado e doutorado em Engenharia Naval e Oceânica. Especialista em engenharia offshore, infraestrutura e energia, é CEO da JB Energy e pesquisador da Universidade de Tóquio, no Japão. Lidera o Aura Sul Wind, primeiro projeto-piloto de energia eólica offshore flutuante do Brasil.

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