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Do mar para a lavoura: potencial da Kappaphycus alvarezii no Brasil

Por Renata Melon Barroso Bertolini¹ e David Vilas Boas Campos²

A Kappaphycus alvarezii chegou ao litoral brasileiro em 1995, trazida das Filipinas, e por décadas permaneceu como cultura de nicho, voltada quase exclusivamente à extração de carragena para as indústrias alimentícia e cosmética.

A espécie responde por parte relevante do comércio internacional de macroalgas, com cerca de 1,8 milhão de toneladas comercializadas globalmente em 2024, segundo dados da FAO.

O Brasil, historicamente, ficou do lado importador dessa cadeia: em 2025 o país importou aproximadamente 2.400 toneladas de carragena, num valor próximo a US$ 25 a 30 milhões — um indicativo claro de que existe demanda interna sem produção nacional correspondente.

O cenário que hoje desperta mais interesse, além da carragena, é o dos insumos agrícolas. O extrato aquoso de K. alvarezii tem ganhado espaço no mercado de bioinsumos como biofertilizante ou bioestimulante, com estudos mostrando estímulo ao desenvolvimento radicular, melhora na qualidade do solo e efeitos positivos sobre a sanidade e produtividade vegetal.

Esse é um mercado com lógica diferente da commodity de carragena: menor volume, maior valor agregado, e alinhado à demanda crescente por insumos que reduzam a dependência de fertilizantes minerais e sintéticos.

Do ponto de vista econômico, a proposta é atrativa porque a alga cresce rapidamente e sem adição de insumos externos — características que reduzem custo de produção e tornam o cultivo escalável em regiões costeiras com condições adequadas.

O gargalo real não é biológico, mas regulatório e da cadeia produtiva: autorização ambiental, controle de qualidade e caracterização técnica do produto ainda estão em construção.

Não por acaso, projetos em curso hoje se concentram exatamente nisso — validação agronômica, padronização dos insumos e viabilidade técnico-econômica em diferentes regiões do litoral, de Santa Catarina, Rio de Janeiro e São Paulo.

Do ponto de vista social, o cultivo das macroalgas pode ser conduzido por pequenas comunidades de maricultores, com baixo investimento inicial e sem necessidade de terra própria.

Isso abre uma via real de geração de renda para populações litorâneas historicamente dependentes da pesca artesanal, desde que haja assistência técnica, acesso a mudas de boa qualidade genética e, sobretudo, mercado comprador estável — o que hoje ainda é o elo mais frágil.

Além disso, há a necessidade de estabelecer um modelo de negócio que propicie a sustentabilidade da produção para os pequenos produtores e a sua relação com os compradores.

Um modelo de integração verticalizada, aos moldes de outras cadeias, pode ser uma possibilidade. Uma visão realista, portanto, evita dois exageros comuns: tratar a Kappaphycus alvarezii como solução mágica para o agro nacional, ou descartá-la por ainda ser incipiente.

O que existe é uma janela concreta, mas condicionada — o Brasil tem espécie adaptada, litoral favorável, demanda de mercado comprovada e pesquisa avançando; falta consolidar cadeia produtiva, escala de cultivo e reconhecimento regulatório para transformar potencial biológico em negócio replicável.

O foco em bioestimulantes, não exclui a extração de coprodutos com valor agregado como bioplásticos, suplementos nutricionais, fármacos, como exemplo, mas é provavelmente o caminho mais rápido para isso, exatamente por atender a uma demanda agrícola crescente e menos disputada por grandes players internacionais.

Nesse cenário de transformação, a Rede Algicultura BR se consolida como o pilar estratégico para impulsionar e estruturar a algicultura no país.

Criada em 2026 e coordenada pela Embrapa, essa articulação técnico-científica interinstitucional possibilitará avanço do setor ao integrar instituições de pesquisa, ensino, extensão rural, órgãos públicos e a iniciativa privada.

Ao articular programas, projetos e ações integradas de pesquisa, desenvolvimento e inovação, a Rede gera a sinergia indispensável entre todos os elos da cadeia de valor, assumindo um papel determinante para acelerar a consolidação e a competitividade dessa indústria no Brasil.

*¹Analista da Embrapa Pesca e Aquicultura ²Pesquisador da Embrapa Solos

Coordenadores da Rede Algicultura BR

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